Banco Negou a Portabilidade do Salário por Causa de Dívida? Saiba Seus Direitos

10/07/2026

/

João Coelho

Resposta direta: o banco não pode negar nem condicionar a portabilidade do seu salário à quitação de dívida. A transferência para o banco que você escolher é um direito, gratuita e automática, pela Resolução CMN 5.058/2022. Usar a conta-salário presa como garantia de cobrança é prática abusiva que a Justiça vem corrigindo, inclusive com urgência.

O roteiro se repete em julho de 2026: a pessoa tem empréstimo em atraso no banco onde a empresa deposita o salário, percebe que todo dia de pagamento o valor some para abater a dívida e decide portar o salário para outro banco. Na agência, ouve que a portabilidade só sai depois de quitar ou renegociar o débito. Esse condicionamento junta duas condutas indevidas: a retenção do salário, tese vencedora em 88% dos 197 acórdãos do TJSP analisados em estudo do escritório, e a negativa de um direito garantido por norma do Conselho Monetário Nacional.

Portabilidade de salário é direito, não favor

O direito existe desde 2007 e hoje é regido pela Resolução CMN 5.058/2022, que revogou a antiga 3.402/2006: quem recebe por conta-salário pode transferir os créditos automaticamente, sem custo, para conta de outra instituição indicada por você. O banco da folha é obrigado a fazer a transferência no mesmo dia, e não pode cobrar tarifa por isso. A escolha é sua e pode ser alterada quando quiser. Nenhuma norma autoriza o banco a exigir quitação de dívida como condição.

Condicionar a portabilidade do salário ao pagamento de dívida é usar a verba alimentar como refém da cobrança. A jurisprudência trata a prática como venda casada às avessas e abuso de posição contratual, com base nos arts. 39 e 51 do CDC.

Por que o banco segura a portabilidade

A razão é simples: com o salário caindo na conta dele, o banco desconta a dívida na fonte, prática que o art. 833, IV, do CPC e a jurisprudência do STJ vedam para dívida comum. Quando o salário migra para outro banco, esse acesso acaba. A negativa de portabilidade costuma ser o último recurso para manter a retenção. Entender isso muda a leitura do caso: não são dois problemas separados, é uma estratégia única de cobrança irregular.

Os três cenários e o que fazer em cada um

CenárioO que está erradoCaminho
Banco nega portabilidade por dívida em abertoCondicionamento sem base legal (Res. CMN 5.058/2022)Protocolo por escrito, reclamação no Banco Central e, se persistir, ação com tutela
Banco aceita o pedido mas enrola sem prazoTransferência deve ser automática, no dia do créditoRegistrar datas e protocolos; a demora documentada vira prova
Portabilidade feita, mas banco antigo segue descontando de saldo remanescenteRetenção de verba alimentarPedido de devolução, em dobro quando indevida (art. 42 do CDC), e dano moral conforme o caso

O que a Justiça tem concedido

Nos casos de retenção da amostra do estudo, a tutela de urgência saiu em 62% dos processos, mandando o banco parar de descontar logo no início. A devolução em dobro apareceu em 30% e o dano moral em 53%, na faixa típica de R$ 5 mil a R$ 15 mil. Quando a negativa de portabilidade se soma à retenção, a prova do abuso fica mais forte: o banco não só tomou o salário como impediu a saída. Os percentuais descrevem a amostra estudada e não são promessa de resultado.

Passo a passo para destravar

  1. Formalize o pedido de portabilidade no banco da folha ou peça ao novo banco que inicie o processo, guardando protocolo e data.
  2. Exija a negativa por escrito. Se o atendente alegar a dívida como condição, peça o registro formal do motivo.
  3. Reclame no Banco Central (bcb.gov.br, canal Reclamação) e no consumidor.gov.br anexando os protocolos.
  4. Avalie a via alternativa: indicar ao empregador conta de outro banco para o depósito, quando a empresa aceitar a troca do domicílio bancário.
  5. Procure orientação jurídica se a negativa persistir ou se houver descontos: tutela de urgência pode liberar a portabilidade e suspender a retenção ao mesmo tempo.

Um caso real: banco segurou o salário inteiro depois do pedido de portabilidade

Foi exatamente esse roteiro que o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro julgou na Apelação Cível 0835824-13.2022.8.19.0001, na 12ª Câmara Cível, com relatoria do desembargador Cherubin Schwartz. Depois que a cliente pediu a portabilidade, o Bradesco passou a reter integralmente o salário dela, por cerca de dois meses, para quitar empréstimos em atraso.

O que estava em jogo: a pessoa ficou dois meses sem ver a cor do próprio salário, justamente após exercer o direito de levar a conta para outro banco.

O que o tribunal decidiu: “Retenção integral do salário que não se mostra razoável, considerando se tratar de verba de natureza alimentar.” O acórdão aplicou ainda o teto da Súmula 295 do TJRJ: “a totalidade dos descontos incidentes em conta corrente não poderá ser superior a 30% do salário do devedor”.

O resultado: o recurso do banco foi negado, o da cliente foi provido e o dano moral foi fixado em R$ 15.000,00, pela privação da subsistência que o tribunal descreveu como algo que traz “temor, angústia e aborrecimentos” muito além do aborrecimento comum.

A honestidade pede também o contraponto, que existe: na Apelação 1005589-39.2023.8.26.0037, o TJSP negou o pedido de quem fez portabilidade para escapar da parcela de consignado contratado antes da mudança. Ali o desconto foi considerado exercício regular de direito, porque consignado regular acompanha a folha (Resolução 3.402/2006, art. 2º, §1º, II, norma da época do caso, regra mantida na atual Resolução CMN 5.058/2022). A linha que separa os dois casos é a mesma deste artigo: consignado dentro da regra continua valendo, apropriação do salário na conta não.

Perguntas frequentes

O banco pode negar a portabilidade do salário porque tenho empréstimo atrasado?

Não. A Resolução CMN 5.058/2022 garante a transferência gratuita e automática para o banco da sua escolha, sem condicionar o direito à quitação de dívida.

A portabilidade do salário cancela o empréstimo que tenho no banco antigo?

Não. A dívida continua existindo e deve ser paga pelos meios regulares. O que muda é que o banco perde o acesso direto ao seu salário para descontar por conta própria.

Portei o salário e o banco antigo continua descontando parcelas. Pode?

Desconto de consignado regular continua, porque vem da folha. Retenção de valores que entram na conta para quitar dívida comum segue indevida, antes ou depois da portabilidade.

Quanto tempo demora a portabilidade de salário?

Após o registro, o pedido de portabilidade deve ser processado pela instituição em até 10 dias úteis (art. 7º, §3º, da Resolução CMN 5.058/2022), e a transferência abrange o valor total creditado, sem tarifa. Demora além do prazo deve ser documentada.

Consigo resolver sem processo?

Muitos casos se resolvem com a reclamação registrada no Banco Central e no consumidor.gov.br. Quando o banco insiste, a ação com pedido de urgência é o caminho.

Continue no cluster de retenção de salário

Este conteúdo tem caráter informativo, em conformidade com o Provimento 205/2021 da OAB, e não constitui consulta jurídica nem promessa de resultado. Cada caso exige análise individual. João Coelho Advocacia, CNPJ 42.148.263/0001-92.

Deixe um comentário